Publicada em: 12/09/2015 - 00:00, por Eduardo Grala

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Eficiência energética na arquitetura

Novos desafios da prática profissional - Texto por Arquiteto Eduardo Grala da Cunha*.

Nos últimos anos tomou força na política energética nacional o tema eficiência energética das edificações. Não é para menos, pois os edifícios consomem na atualidade quase metade da energia elétrica gerada no país, mais especificamente 48,5% de acordo com o Balanço Energético Nacional de 2014, ano base 2013. Nesse contexto, 24,2% são edifícios residenciais, e 24,3% prédios comerciais e públicos.

O meio acadêmico tem mostrado que é possível reduzir em 50% o consumo de energia de um prédio novo eficiente energeticamente e 30% em um prédio antigo com processo de retrofit. Se os nossos prédios sofressem processos de retrofit do dia para a noite reduziríamos o consumo de energia elétrica do país em quase 15%. Teríamos a garantia de suprir o crescimento da demanda de energia elétrica no Brasil por alguns anos.

O objetivo deste artigo é caracterizar os novos desafios dos arquitetos e profissionais da construção civil frente às novas demandas normativas de eficiência energética de edificações. 

A primeira pergunta que me proponho a responder é o que seria uma edificação eficiente energeticamente? O tradicional conceito é definido como uma edificação com o máximo de conforto ambiental com o menor consumo de energia possível. A segunda pergunta, e um pouco mais complexa, seria como obter um edifício eficiente energeticamente?

Aqui teremos que dividir a reposta em duas questões: na primeira parte vamos atenter às edificações residências, na segunda às comerciais, de serviços e públicas, observando os novos regulamentos brasileiros de eficiência energética RTQ-R (Requisitos Técnicos da Qualidade para o Nível de Eficiência Energética de Edifícios Residenciais) e o RTQ-C (Requisitos Técnicos da Qualidade para o Nível de Eficiência Energética de Edifícios Comerciais, de Serviços e Públicos). A eficiência energética de um edifício é uma combinação de dois fatores:

a) um edifício voltado ao contexto climático de inserção (atentando à orientação solar, às necessidades de controle da radiação solar, ao isolamento térmico de paredes e coberturas, ao projeto dos sistemas de esquadrias entre outros vários aspectos); e b) uma edificação com equipamentos (aquecimento de água, motores, bombas e outros) e sistemas (iluminação e ar condicionado) eficientes energeticamente. A ênfase aos equipamentos e sistemas nos regulamentos mudam em decorrência do uso e ocupação das edificações. 

No caso das edificações residenciais a ênfase do ponto de vista bioclimático está na envoltória, caracterizada por: capacidade térmica, absortância solar e transmitância térmica (isolamento térmico) de paredes e coberturas, orientação solar e tamanho das aberturas. Aspectos como ventilação e iluminação natural são também tratados nos regulamentos. Além da adaptação do edifício ao clima, o regulamento de eficiência energética preconiza a eficiência dos equipamentos de aquecimento de água, forçando (com uma avaliação muito fraca), a não utilização de chuveiros elétricos para aquecimento de água. O aquecimento solar com fração solar de 70% conjuntamente com outros sistemas de aquecimento, como sistema instantâneo a gás, são também valorizados no contexto de avaliação.

O RTQ-R e o RTQ-C classificam o nível de eficiência energética da edificação entre "A" (mais eficiente) e "E"(menos eficiente). A eficiência de sistemas de iluminação artificial como também ar condicionado, bombas e motores, e elevadores também entram no contexto de avaliação.

No caso de edifícios comerciais de serviços e públicos o regulamento é o RTQ-C, o qual preconiza além de uma envoltória eficiente (arquitetura bioclimática) equipamentos e sistemas de iluminação e ar condicionado eficientes. O que nas décadas de 80 e 90 e início dos anos 2000 era apenas um conteúdo complementar nos currículos de Arquitetura e Urbanismo valorizando a discussão da interação entre Arquitetura e Clima, hoje é insuficiente frente às demandas dos regulamentos de eficiência energética.

A necessidade de um conhecimento técnico profundo no que diz respeito a equipamentos e sistemas das edificações faz com que por um lado os cursos de Arquitetura e Engenharia tenham que se reestruturar e por outro, cobram dos profissionais que atuam no mercado uma reciclagem e formação complementar.

Cabe-se ressaltar ainda que a Instrução Normativa MPOG/SLTI n° 02, de 04 de junho de 2014 definiu que todos os prédios públicos novos em nível federal, ou com mais de 500 m2 que sofram processos de retrofit, devam possuir etiqueta nacional de conservação de energia (ENCE) nível "A", ou seja, nesses casos é obrigatório o desenvolvimento de um projeto observando a arquitetura bioclimática e a eficiência energética de equipamentos e sistemas da edificação. Nos demais casos a ENCE ainda é voluntária.

* Eduardo Grala da Cunha possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pelo Universidade Federal de Pelotas (1994), especialização em Engenharia de Produção pela Universidade Católica de Pelotas (1995), Mestrado em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2005) e pós-doutorado (Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2005) e pós-doutorado (Universidade de Kassel, 2007/2008). é revisor dos Periódicos Ambiente Construído, Journal of Civil Engeneering and Architeture, Oculum Ensaios, Arquitextos, Revista Brasileira de Ciências Ambientais, Revista de Arquitetura Imed, e Tecnologia e Sociedade. Atualmente é professor Adjunto da Universidade Federal de Pelotas, atuando como pesquisador no Laboratório de Conforto e Eficiência Energética (LABCEE) e Laboratório de Inspeção de Eficiência Energética em Edificações (LINSE) um dos três laboratórios acreditados pelo INMETRO no Brasil para etiquetar edificações. É também Pesquisador com Bolsa Produtividade CNPq.

Contato: eduardo.grala@ufpel.edu.br

Palavras-chave:

eficiência

energética

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