Publicada em: 05/09/2016 - 00:00, por Linessa Busato

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Espaços Públicos

Os espaços públicos da cidade são cenários para a vida coletiva. Através das ruas e calçadas podemos circular em praças e parques e ter contato com a natureza, socializar, praticar esportes, etc. Neste sentido, a qualidade do espaço livre urbano interfere diretamente na qualidade de vida da população.

Justamente pelo espaço urbano abrigar atividades variadas da cidade, se modifica de acordo com o contexto social, econômico e cultural de cada época. Nos diferentes períodos da história da humanidade, a estrutura das cidades e de seus espaços públicos são uma reflexão do modo de vida.

A revolução industrial marca um período em que os espaços das cidades atingiram grande degradação . As indústrias eram localizadas nos centros urbanos, fato que contribuiu para a destruição do meio ambiente, da vegetação natural, dos recursos hídricos e da qualidade do ar. Para melhorar a condição de saneamento e aspectos paisagísticos, algumas cidades sofreram grandes requalificações urbanas, como Paris, Barcelona, Chicago e Madri, onde foram construídas grandes ruas arborizadas, os Boulevares, parques e praças. Pelos anos seguintes, estes seriam os modelos para os traçados das novas cidades. A cidade de Erechim, no RS, por exemplo, teve seu traçado inspirado no trabalho do Engenheiro ldelfonso Cerdá, que reformou a cidade de Barcelona em 1859.

No século XX, com a popula ção em sua maioria urbana, as cidades estavam crescendo vertiginosamente. Os espaços públicos eram insuficientes para receber novas instalações de telefonia, gás, eletricidade e transporte público, infraestrutura resultante da tecnologia da época. Os urbanistas modernistas buscavam uma nova forma de pensar o urbano, que correspondesse cidade que crescia na velocidade da máquina. Neste contexto, Le Corbusier, juntamente com outros arquitetos de Vanguarda, definiu quatro funções básicas que ocorrem no espaço urbano: habitar, trabalhar, recrear e circular.

A cidade modelo modernista seria uma cidade jardim, com suas funções básicas agrupadas, onde as zonas verdes serviriam para o lazer nos parques de bairro e parques centrais, para a preservação de áreas naturais e se espalhariam por toda cidade, diferentemente das antigas cidades compactas. 

As ruas corredores deveriam ser substituídas por sistemas que protegessem o pedestre, possibilitassem os diferentes fluxos de bicicletas, veículos rápidos e lentos.

Conceitualmente a teoria das cidades modernistas era fantástica, existia a preocupação com o bem comum, o direito a todos a um espaço urbano qualificado, preocupação com espaços públicos para recreação e lazer mas, na prática, os resultados foram diferentes.

Nossa capital, Brasília foi projetada por Lúcio Costa que utilizou o conceito modernista de urbanismo. Como cidade jardim, Brasília é lindíssima, repleta de parques e muito arborizada, mas a setorização rígida das funções tornou o espaço urbano muito segmentado. Como cidade modelo do futuro, idealizada na década de 50, imaginava-se que todos teriam seu próprio veículo, por este motivo priorizou-se o automóvel e grandes eixos rodoviários, possibilitando rapidez e agilidade, mas para quem não tem carro e precisa caminhar ou depende do transporte públicojá não apresenta a mesma eficiência. 

Durante muito anos os preceitos modernistas foram utilizados como referência para urbanização das cidades, na maioria das vezes aplicados de maneira errada. A prioridade dos sistemas de circulação de veículos individuais é um exemplo disso. A estrutura da maioria das cidades brasileiras foi pensada para facilitar o trânsito dos automóveis, deixando de lado a qualidade dos espaços públicos para as pessoas.

Como reação ao modernismo, o Novo Urbanismo, surgiu na década de 80 nos Estados Unidos, tendo como princípio básico a construção de cidades mais humanizadas. Em 1996, o Congresso do Novo Urbanismo, resultou em uma carta de alternativas para o desenvolvimento das cidades. Dentre os itens da carta estão as questões de sustenta- bilidade, alternativas de transporte não motorizados, retorno da escala humana dos bairros, prioridade das pessoas nos espaços públicos, recuperação de espaços degrada- dos e subutilizados, etc.

Entre os técnicos o Novo Urba- nismo já era conhecido, mas alguns dos tópicos se popularizaram nas redes sociais, graças a globalização do conhecimento dado pela internet. Grupos sociais que defendem o transporte através da bicicleta, a valorização de espaços de parques praças, o direito pelo espaço público de qualidade e outros, são cada vez mais atuantes e tem conseguido modificar e interferir nas decisões de planejamento.

A participação dos moradores no processo de planejamento dos espaços públicos é um dos principais focos do Novo Urbanismo e isto tem acontecido com maior

intensidade graças aos movimentos populares nas mídias sociais. A cidade contemporânea não pode ser pensada somente por um corpo técnico e gestores públicos, deve ter apropriação e contemplar o desejo dos usuários destes espaços, caso contrário qualquer projeto, por mais arrojado e bonito que seja, poderá sofrer rejeição por parte da população.

Percebemos atualmente movi- mentos de reapropriação dos espaços públicos pela população em nossa cidade e isso é muito bom. Pessoas optando por se locomover de bicicleta, em número cada vez maior, incentivado pela construção da ciclovia, apropriações das áreas verdes de convívio com os pic-nics noturnos, feiras de comida artesanal, as praças cheias no fim de semana, mostram que as pessoas estão vivenciando mais a cidade. O uso e vivência destes espaços comuns desperta o sentido de comunidade e de cidadania.

As cidades do futuro deverão oferecer espaços públicos de qualidade. Precisamos superar o modelo Modernista ultrapassado de desenvolvimento urbano, onde a verticalização, a construção de shoppings, condomínios privados e grandes rodovias dão uma falsa sensação de progresso, porque isso não traz qualidade de vida para as pessoas, fato comprovado cientificamente. 

Colaboração:

Linessa Busato
Arquiteta e Urbanista
Especialista em Gestão Urbana e Desenvolvimento Municipal
Mestranda em Planejamento Urbano e Regional
Professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da IMED, Passo Fundo, RS.

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